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O que há no seu coração?

O músculo do coração físico, alimentado por artérias, bombeia e regula o fluxo sanguíneo que leva o oxigênio e os nutrientes pelo nosso corpo. Se exercitamos esse músculo com exercício cardiovascular e o alimentamos com nutrientes saudáveis, ele ficará mais forte. Mas deixe-o enfraquecer e alimente-o com toxinas, e todos nós sabemos o que acontece: o músculo fica fraco e as artérias ficam entupidas.

O mesmo acontece com o nosso coração espiritual. O coração é a sede das nossas paixões; ele nos impulsiona e nos compele a ser quem somos e a agir como agimos. Ele é a essência do nosso caráter. Então, o que acontece se o alimentarmos com toxinas e o deixarmos enfraquecer? Ele fica obstruído e passa a bombear essas toxinas venenosas para a nossa vida. Quando a vergonha é bombeada através do coração, com o tempo, o próprio coração se torna tóxico. Quando somos feridos, um resíduo tóxico começa a vazar, e esse resíduo nos envenena e envenena as pessoas que nos cercam – até mesmo quando estamos completamente inconscientes disso.oquehaNOV18

A realidade é: pessoas machucadas machucam pessoas; pessoas fragmentadas fragmentam pessoas; pessoas destruídas destroem pessoas; pessoas danificadas danificam pessoas; pessoas feridas ferem pessoas; pessoas acorrentadas acorrentam pessoas.

Muitos de nós fomos feridos, sofremos ofensas, e vivemos com questões não perdoadas em nossas vidas. Algumas vezes, sofremos tanto abandono e rejeição que escolhemos mecanismos de defesa imperfeitos para tentar apaziguar essas áreas fragmentadas. Quando eu tinha 33 anos, descobri que meu irmão e eu fomos adotados. Foi chocante. Um momento surreal. Semanas depois, quando vi minha certidão de nascimento, ela dizia que eu não tinha nome e que era “indesejada”. Isso me afetou muito. Adotada. Indesejada. Sem nome.

Soube que a minha mãe biológica não era casada quando engravidou de mim – e conceber um filho fora do casamento era vergonhoso para uma mulher grega nos anos 1960. Então, fui concebida em vergonha, deixada em um hospital por vergonha e, depois, adotada em vergonha. Minha mãe e meu pai adotivos sofreram a vergonha de não poder conceber. Por causa dos estigmas sociais, eles guardaram segredo quanto à adoção.

Sei o que é encontrar todo tipo de toxinas bloqueando o meu coração e sendo bombeadas para todas as áreas da minha vida. Eu era assim nos meus primeiros anos na fé. Havia sofrido tanto abuso e levava comigo tanta vergonha que meu coração estava sufocado pelo perfeccionismo, pela falta de perdão, pela amargura, pela culpa e pela ira. Quando carregamos toxinas dentro de nós, por mais que tentemos, ainda as deixamos vazar, contaminando os que nos cercam e destruindo nossos relacionamentos.

Eu sabia que Deus tinha um grande propósito e um grande destino para a minha vida. E, ah, como queria entrar nele! Mas havia uma disparidade – uma grande lacuna – entre o que eu queria fazer e ser e o que estava acontecendo no meu mundo interior.

É aqui que muitos de nós ficamos estacionados. Sentimos aquela lacuna dolorosa entre o que sabemos que deveria estar acontecendo dentro de nós – amor, perdão, bondade, alegria, paciência, paz, e assim por diante – e o que está realmente acontecendo – ira, impaciência, ciúme, confusão, julgamento, suspeita, culpabilidade, e assim por diante.

Quando percebi isso em minha vida, falei com Deus sobre meus piores e mais assustadores sentimentos, pensamentos e lembranças. Escolhi ser vulnerável e buscar aconselhamento por parte de mentores experientes e confiáveis. Quando fiz isso, Deus começou a penetrar nos meus mecanismos de defesa espessos e endurecidos. Comecei a passar da libertação à liberdade nessa área – do deserto à terra prometida.

Nada disso é fácil. É difícil permitir que Deus penetre nos mecanismos de defesa que estavam obstruindo nosso coração. Afinal, eles eram uma fonte de proteção. Mas à medida em que permiti que o Senhor curasse o meu coração, minha fé, minha força e minha coragem aumentaram. Passei de estar constantemente tentando me proteger controlando cada detalhe da minha vida, a me entregar ao Senhor, pouco a pouco. Uma troca divina e sobrenatural estava ocorrendo. Deus estava substituindo o meu coração obstruído pelo Seu coração de carne, porque corações saudáveis criam vidas saudáveis e frutíferas (Ez. 36.26).

Com o tempo, passei de uma pessoa com o coração ferido a uma pessoa que começa a ter a capacidade de ajudar outras. Afinal, só pessoas livres podem realmente libertar pessoas. Sim, pessoas machucadas machucam pessoas, mas pessoas ajudadas ajudam pessoas. Pessoas fragmentadas fragmentam pessoas, mas pessoas reconstruídas edificam pessoas. Pessoas destruídas destroem pessoas, mas pessoas curadas restauram pessoas. Pessoas danificadas danificam pessoas, mas pessoas amadas amam pessoas. Pessoas feridas ferem pessoas, mas pessoas curadas curam feridas. Pessoas presas prendem pessoas, mas pessoas libertas levam outras à liberdade.

*Trecho do livro “Livres da Vergonha”, lançado do Brasil pela editora Chara.

 

ChristineCaine