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Até que a tecnologia nos separe

Um vídeo no Youtube viralizou ao mostrar uma criança de dois anos de idade tentando aumentar com os dedos uma foto na página de uma revista, assim como se faz em um telefone ou tablet.
A cena, que provocou muitos comentários, não teve o mesmo sucesso em levar as pessoas a pensarem no que está errado com relação a ela.

Nos últimos 50 anos, o mundo mudou de forma quase que inimaginável. Todas as camadas sociais foram impactadas com as mudanças da era pós-moderna. Mas, talvez, nenhuma tenha sido tão impactante como a revolução tecnológica. O que era imaginado por diretores de Holywood nos filmes de ficção científica se tornou parte do cotidiano de milhões de pessoas.

No aspecto positivo, o avanço tecnológico facilitou a comunicação, aproximou pessoas, agilizou o processo de tomada de decisões e aumentou consideravelmente a produtividade. A minha preocupação, no entanto, recai sobre os efeitos colaterais. No ano de 2017, a revista Forbes publicou um artigo sobre uma experiência realizada pela Faculdade de Negócios do MIT (Massachusetts Institute of Technology), tendo como base a experiência de duas escolas, uma na Itália e a outra na França. Professores de ambas estabeleceram como requerimento de uma das classes que todos os alunos deixassem seus smartphones desligados ou com um amigo pelo período de 24 horas. O resultado foi alarmante. Alguns alunos apresentaram níveis de ansiedade altíssimos. Os que deixaram seus aparelhos com amigos, pediram que eles olhassem os telefones, em média, a cada 10 minutos. Mais grave ainda foi notar que vários dos alunos apresentaram sintomas psicológicos semelhantes aos que tem um dependente de drogas que inicia um processo de desintoxicação.Box atequeAGO18

Um outro estudo, interessado na relação entre o uso excessivo da tecnologia e a saúde mental, descobriu que 48% dos adolescentes que passam mais de cinco horas por dia usando seus smartphones apresentaram sintomas de depressão, ansiedade e pensamentos suícidas, versus 28% dos que passavam apenas uma hora por dia. Jean Twenge, autora do livro “iGen”, disse que “embora ainda não se tenha dados estatísticos suficientes para afirmar com absoluta certeza a ligação entre o aumento de doenças mentais em adolescentes ao uso excessivo de smartphones, pesquisas revelam que o crescimento desse tipo de distúrbio nessa faixa etária entre os anos de 2010 e 2015 foi o maior já percebido na história”. Já os adolescentes que passam boa parte do seu tempo praticando esportes, se relacionando com amigos e família, indo à igreja, estudando ou envolvidos em qualquer atividade que a pesquisadora chama de “vida real”, apresentaram índices muito mais baixos de depressão, ansiedade e pensamento suicida.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, disse que, hoje em dia, adultos e crianças “estão se satisfazendo com conversações triviais, com amigos invisíveis em nome de se manterem “conectados””. Segundo Bauman, “para a maioria das pessoas hoje, seu mais fiel amigo é o computador”.

Continuando na perspectiva sociológica, estamos assistindo, impotentes, à degradação familiar. Famílias gastam tempo juntas, cada um olhando para o seu próprio aparelho. O distanciamento afetivo entre pais e filhos aumentou assustadoramente na última década. Com a falta de comunicação e a impossibilidade de expressar sentimentos, desejos, frustrações e sonhos, os adolescentes têm se fechado em seu próprio mundo e, segundo Jean Twenge, têm crescido “sem mentoria, sem histórico familiar e totalmente despreparados emocionalmente para a fase adulta”.

O que fazer diante dessa situação? Creio que temos uma excelente matriz bíblica como resposta nas palavras do apóstolo Paulo à igreja em Roma:

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm. 12.2).

Precisamos nos dedicar no estabelecimento de ambientes familiares saudáveis, afetuosos, próximos e participativos. O instituto CASA da Universidade Columbia em Nova York desenvolveu um projeto piloto orientando famílias para que tivessem tempo de qualidade, desconectadas de seus aparelhos, durante as refeições. O resultado foi empolgante: nas famílias que tinham refeições juntas pelo menos três vezes por semana – sendo cinco vezes por semana o ideal – sem o uso de aparelhos celulares, foi percebida uma redução de 50% no uso de drogas, cigarro e álcool entre os filhos adolescentes em comparação com famílias que não faziam as refeições juntas, ou as faziam permitindo o uso de celulares na mesa.

No simples convívio ao redor da mesa, conversas, risadas, comentários sobre a comida, abrem-se importantíssimas janelas para a alma dos nossos filhos e a oportunidade de cumprirmos com o que a Bíblia nos ensina:

“Ensinem-nas a seus filhos, conversando a respeito delas quando estiverem sentados em casa e quando estiverem andando pelo caminho, quando se deitarem e quando se levantarem” (Dt. 11.19).

 

ManoelOliveira