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Sonhos não envelhecem

Sempre gostei muito de leituras e de círculos de debates. Esses espaços sempre me inspiraram muito. Para além dos exercícios intelectuais, a realidade prática da vida sempre me chamou muita atenção. Eu me converti aos 11 anos de idade, sou filho e neto de pastores. Cresci num lar cristão. Me lembro exatamente do dia da minha conversão: foi num culto de domingo de 1980 na minha igreja (Comunidade da Graça – Zona Leste de São Paulo). Naquele dia pregava uma equipe do Navio Doulos, e entre eles havia alguns missionários que eram médicos. Eles contaram algumas experiências do campo missionário ao redor do mundo. Aqueles testemunhos me arrebataram de uma forma singular. Dia inesquecível.

Naquele dia eu entreguei minha vida a Cristo. Eu me lembro, inclusive, de ter feito uma oração. Eu disse a Deus que eu gostaria muito de ser como um daqueles caras que estavam lá. Eu gostaria de ser um médico missionário. Eu estava entregando a minha vida para que Deus me usasse daquela forma para que eu pudesse, através da minha vocação e profissão, servir pessoas e transformar vidas e realidades. E o que é incrível nessa história é que hoje eu faço exatamente aquilo que orei naquela noite de 1980. Sou a confirmação de que oração é uma coisa “perigosíssima”, porque Deus responde. Ainda mais a oração de uma criança, sincera, de um coração infantil. Anos depois eu prestei o vestibular e ingressei no curso de medicina. A partir dali, de forma cada vez mais forte, crescia o desejo em mim de usar minha vocação à serviço das pessoas e de transformação de histórias e realidades, principalmente as realidades sociais onde aquelas pessoas viviam.

Ingressei na faculdade de medicina com 16 para 17 anos. Nesse tempo vivi muitas experiências que marcaram profundamente a minha vida. Como todo adolescente em fase de transição para a juventude, fui pro ambiente acadêmico com todos os questionamentos existenciais provenientes desse tempo da vida. Paralela a essa experiência, comecei a ter contato com uma leitura “diferente” das escrituras. Conheci pastores e teólogos que me forneceram um novo horizonte de compreensão e me ajudaram a entender a dimensão da integralidade do Evangelho, de um Evangelho que transforma pessoas de maneira integral. Um Evangelho que convida todos e todas a transformações, inclusive a transformações dos ambientes de injustiças e desigualdades.

O curso de medicina é um curso que nos coloca em contato direto com a miséria e com as desigualdades. A falta de acesso à saúde tem um impacto enorme na vida das pessoas. Algumas delas pagam com a própria vida. A falta de pré-natal tem impacto direto na interrupção da vida e na geração da morte. Experimentando essa realidade diariamente, resolvi convidar um grupo de amigos (uns quatro ou cinco) da Comunidade da Graça, e começamos um grupo de estudos bíblicBox sonhosJUN18os. A intenção era ler os textos bíblicos e atualizá-los no nosso contexto. Percebemos então que não era possível ficarmos só na leitura: era preciso pôr em prática. Nos organizamos e começamos um projeto. O projeto foi se desenvolvendo e a gente nem se deu conta de que começava ali um embrião de uma fundação. O projeto distribuía cestas básicas e oferecia aulas de reforço para combater o analfabetismo radicalmente presente naquela região.

Vinte e cinco anos depois o projeto virou uma fundação com centenas de funcionários e voluntários. Hoje, a Fundação Comunidade da Graça faz mais de 500 mil atendimentos por ano, com uma clínica médica, uma escola, um restaurante popular e seis creches com aproximadamente 1500 crianças. Aquela ideia de garoto foi transformada no braço social da nossa Comunidade. Glória a Deus por isso!

Eu sempre sonhei em organizar projetos e articular pessoas para transformação da cidade. Essa experiência na Fundação foi fundamental para que eu descobrisse minha vocação ao serviço público.

É fato que ainda há muito a se fazer. Mas o que gostaria de deixar registrado, caro leitor, é que o sonho de uma criança de 11 anos está em curso há quarenta anos. Isso significa que a nossa missão/vocação como igreja de Jesus será aqui e agora à medida ou na intensidade que reconhecermos, valorizarmos e defendermos a liberdade e o direito que cada criança, cada ser humano, existencialmente tem de ser feliz, brincar e reimaginar novos mundos possíveis, todos os mundos possíveis que seu pequeno coração puder desenhar. Ou ainda como diria o bom e velho Clube da Esquina: “Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem”.

Creio que vocação é uma tarefa específica que o Espírito Santo dá a pessoas específicas. Deus dá a cada um de nós uma vocação específica. E vocação é aquela tarefa que você faria mesmo que não recebesse nada para fazê-la, pois é o que move seu coração, é algo que você ama fazer. Deixo aqui o desafio: se você ainda não descobriu sua vocação no corpo de Cristo, é tempo de descobri-la. Ore, se apresente e diga: “eis-me aqui”.

Deus é especialista em dar tarefas extraordinárias a pessoas ordinárias como nós. Experimente crer.

 

CarlosBezerraJr03