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Por que não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço?

Você consegue controlar seus desejos e impulsos?

Frustração. Segundo o dicionário, trata-se de um sentimento, uma emoção que ocorre quando algo que era esperado não acontece. É o estado de um indivíduo quando impedido – por outro ou por si mesmo – de atingir a satisfação.

A pergunta de Paulo no texto de Romanos provém do mais profundo de um coração frustrado, indignado. Não com uma situação, nem com outra pessoa, mas consigo mesmo. Já deu de cara com uma situação específica onde sua satisfação, assim como a do apóstolo, não foi atingida?

Em Romanos 7.15, Paulo afirma:

“Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio.”

Que terrível é para o ser humano ter que enfrentar uma situação que foge do seu controle. Muitos não vêm outra saída que não seja tentar novamente resistir, apelar ao domínio próprio, e esperar pelo melhor. Mesmo que isso não aconteça e o ciclo volte a começar, uma e outra vez.

Pesquisas científicas sobre o domínio próprio destacam que as pessoas que o possuem vivem mais tempo, são mais felizes, sofrem menos casos de depressão, são mais fisicamente ativas, têm taxas cardíacas mais próximas da perfeição, têm emoções mais estáveis, são mais dispostos a ajudar a outros, obtêm melhores empregos, ganham mais dinheiro, têm melhores casamentos e dormem melhor à noite. Mas psicólogos, sociólogos e outros cientistas não estão apenas interessados nos seus benefícios práticos. Eles querem saber o que é, como funciona e por que algumas pessoas parecem ter mais do que outras.

O domínio próprio regula desejos e impulsos. Envolve querer fazer uma coisa, mas escolher fazer outra. As respostas a uma situação determinada são substituídas. É como escolher pegar uma maçã, ao invés de querer engolir um pote inteiro de sorvete... ou dois.

O cristianismo ensina frequentemente a substituir uma resposta por outra. Na cultura greco-romana o autocontrole era uma virtude humana que, quando exercida para evitar algum tipo de prazer ou desejo, aproximava o homem da divindade. Os autores bíblicos, em contrapartida, viram que muitos dos prazeres do mundo são dons de Deus para serem apreciados e ensinam que o domínio próprio é fruto da submissão a Deus e não da autonomia.

No entanto, a ideia de substituir uma resposta por outra, regulando nossos desejos e impulsos, está por trás de todos os ensinamentos bíblicos para oBox porquenaoFEV18bedecer quando somos tentados: queremos nos preocupar, mas devemos orar; queremos amaldiçoar, mas devemos abençoar; queremos odiar, mas devemos amar.

É um músculo!

Muitos podem pensar no domínio próprio como um extintor de incêndio - para ser usado em situações de emergência na luta contra as chamas da tentação. Ou num interruptor de energia, para ser ativado quando necessário. Mas as pesquisas mostram que ele se comporta como um músculo. Ou seja, pode ser treinado. Quanto mais é utilizado, mas forte ele se torna.

Isso porque há um relacionamento direto entre domínio próprio e hábitos. Há hábitos que são automáticos – como dirigir um carro – e outros que são controlados, requerem mais atenção, e nos permitem aprender ou executar tarefas mais difíceis e que demandam muita força de vontade – como dirigir um carro num país onde o volante esteja do lado direito. Os hábitos que podem ser considerados automáticos são bons para executar tarefas do dia a dia, mas se as pessoas só tivessem eles, se comportariam como robôs, fazendo cada coisa sem pensar e de forma repetitiva. Já se apenas existissem os hábitos controlados, cada ação deveria ser intencionalmente pensada e executada, o que levaria a viver uma vida extremamente chata. O equilíbrio é importante. E quem dá isso é o domínio próprio!

A Bíblia ensina que o domínio próprio é fruto do espírito (Gl. 5.23). Uma pessoa que não tem isso é como uma cidade sem paredes (Pv. 25.28). A vida cristã envolve colocar ele em prática nas mais diversas situações e, muitas vezes, todas elas ao longo de um mesmo dia. Então, como treinar esse músculo? É importante destacar que os hábitos produzem combustível. De que tipo? Do tipo que nosso cérebro procura, aquele que gera uma sensação específica: a satisfação.

Os Rolling Stones estavam certos

Uma das músicas mais famosas da banda britânica liderada pelo septuagenário Mick Jagger – sim, ainda na ativa –, leva como título “I can’t get no satisfaction” (em inglês, não consigo ter satisfação). Essa música, mesmo que não tenha essa intenção, toca um tema absolutamente bíblico: as pessoas não acham satisfação nos lugares onde costumam procura-la.

É exatamente o que Salomão falava no livro de Eclesiastes: “Quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento” (2.11). Tudo é vaidade! O ser humano procura a satisfação, a persegue. E quando se sente insatisfeito, naturalmente, não procura mudar seus hábitos, mas os pratica ainda mais, para ver se consegue finalmente atingir o que tanto procurava. Mas qualquer tentativa, por melhor que pareça, sempre gera o mesmo resultado: um apetite por satisfação maior, urgente, guloso, destruidor.

A grande maioria dos cristãos aceita a ideia de que consumismo, comida ou sexo não levam à verdadeira satisfação. O passo que parece mais lógico então é procurar satisfação nos estudos bíblicos, devocionais, tempos de oração ou atos de serviço feitos em nome do Senhor. Mas chegar a Cristo esperando alcançar uma satisfação que permanece ancorada em desejos consumistas, gera a mesma frustração que Paulo denunciava. Os desejos é que precisam ser transformados. Jesus não é um produto ou uma solução. Ele é Deus e pode transformar uma vida ao ponto de mudar completamente seus hábitos e gerar fortaleça para um domínio próprio que se alimenta de uma satisfação completamente diferente: quem Deus é.

Então não há esperança?

Há sim! Ela está ancorada na promessa de um Deus amoroso e bom que afirmou que tiraria de nós o coração escravo dos desejos e impulsos e colocaria um completamente novo, livre, que O ama e segue, e que permite viver uma vida completamente nova (Ez. 36.26-27). Não é força de vontade, não é autoajuda, não é apenas mudar hábitos, não é fórmula mágica, é o Espírito Santo transformando corações que eram escravos em outros que acham satisfação em algo completamente diferente: Jesus.

O pastor americano John Piper afirma: “Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos nele”. Ou seja, o Senhor batalha pela alegria e satisfação humana – objeto do Seu amor –, que só pode ser achada verdadeiramente nele:

“Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl. 16.11).

O próprio Paulo expressa em Filipenses 3.8:

"Considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor."

Não há possibilidade alguma de achar esse deleite em Deus sem um novo coração. Não há possibilidade alguma de experimentar uma renovação da mente (Rm 12.2), uma transformação dos desejos e vontades, se não houver novo nascimento, se o Espírito Santo não estiver habitando em nós. Deus sabe disso, por isso, expressando Sua natureza de amor (1 Jo. 4.8), misericórdia e compaixão, oferece ao homem um coração novo.

O mandamento bíblico: "Deleita-te no Senhor" (Sl. 37.4) é outra maneira de dizer: "Façam tudo para a glória de Deus" (1 Co. 10.31). Portanto, se não achar satisfação nele, não haverá transformação de hábitos para poder mudar atitudes e muito menos haverá domínio próprio. Se Deus é mais glorificado quanto mais satisfeitos estamos nele – em quem Ele é –, então não devemos economizar em nada para maximizar nossa alegria nele.

Jesus é a fonte de satisfação plena e verdadeira – “quem beber da água que Eu lhe der jamais terá sede” (Jo. 4.14) – porque Ele é ofuscantemente glorioso, infinitamente digno, lindo, incrível em poder, inescrutável em sabedoria, ilimitado em conhecimento, tenro em misericórdia, e a fonte e fundação de toda verdade, bondade e beleza. Quando nós O vemos pelo que Ele realmente é, e nos afastamos das cisternas rotas do mundo que não nos podem satisfazer (Jr. 2.13), encontramos "alegria inefável e gloriosa" (1 Pe. 1.8).

Essa alegria precisa ser expressada. Senão fica estancada e morre. Como ela se expressa? No domínio próprio, consequência da satisfação completa em Deus, da vida com Cristo e da intimidade com o Pai. A mesma que Paulo teve ao longo de toda sua vida, e que o levou a afirmar:

“por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte” (Rm. 8.2).

Jesus não quer apenas satisfazer os desejos do coração, Ele quer transformá-los.

Há um espaço em nossa alma que somente Deus pode ocupar, e nunca estaremos em paz até que permitamos que Ele o preencha. Como João diz no livro de Apocalipse, capítulo 2: suas obras são boas, coerentes, justas, mas o primeiro amor, o deleite, o relacionamento íntimo, se perdeu. Precisamos nos arrepender de buscar a Deus com uma mentalidade consumista, e voltarmos ao amor genuíno e apaixonante do primeiro encontro com Jesus. Sem Ele, todos os esforços por controlar desejos e impulsos destruidores serão apenas isso, esforços, tentativas vãs de atingir algo que apenas pode se obter através de um relacionamento profundo e transformador com Ele.