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Não Tão Doce Assim

Indústria do chocolate explora milhares de crianças em fazendas de cacau. O que nós podemos fazer?

Era um dia comum em Sikasso, sul da República do Mali. Na rodoviária, muitas pessoas pegavam o ônibus com destino a Zégoua, cidade que fica na fronteira do país com a Costa do Marfim. Entre elas, uma menina de doze anos tentava embarcar acompanhada de uma mulherBox naotaodoceassim já vista por ali antes. Mariam tinha 12 anos, o olhar triste e cansado e muitos machucados pelo corpo. Não precisou de muito para que alguns locais percebessem do que aquilo se tratava: a garota estava sendo traficada.

Mariam foi resgatada por um grupo de moradores da região que luta contra o tráfico de crianças para o país vizinho, o maior produtor de cacau do mundo. Ela pôde voltar para casa – um vilarejo a 450 km dali –, mas estava com medo de seus pais ficarem zangados, já que não levava consigo nenhum dinheiro.

O caso de Mariam não é isolado. Todos os dias, dezenas de crianças são vendidas por seus pais ou sequestradas por traficantes e levadas até a rodoviária de Sikasso, de onde fazem o trajeto de ônibus até a fronteira, são atravessadas por um moto taxi e levadas às fazendas de cacau da região. Milhares delas não têm a sorte de serem resgatadas e acabam sendo submetidas a péssimas condições de trabalho, que envolvem jornadas de 80 a 100 horas semanais e o manuseio de facões e pesticidas, além de ameaças e espancamentos. Nenhuma delas frequenta a escola ou fala a língua local.

Lendo os parágrafos acima, você pode se chocar com essa realidade que parece tão distante. Mas, a verdade é que ela está muito mais perto de nós do que podemos imaginar. A Costa do Marfim produz cerca de 40% do cacau mundial e é a fornecedora de grandes empresas, como a Nestlé e a Hershey’s, duas das marcas mais comercializadas no Brasil.

Em 2001, depois de certa pressão de instituições internacionais, foi feito um tratado por parte das companhias de chocolate, o Protocolo Harkin-Engel, assumindo um compromisso de voluntariamente colocar um fim ao trabalho escravo infantil nas fazendas de cacau até julho de 2005. A data chegou e as coisas continuaram exatamente iguais. O prazo mudou para 2008, mas, pela ausência de mudanças, foi estendido até 2020. Enquanto isso, o número de crianças que trabalham na indústria do cacau aumentou 51% entre 2009 e 2014.

Nós podemos nos posicionar contra essa dura realidade. Como cristãos e cidadãos do Reino de Deus, devemos sempre lutar em favor da paz e da justiça. Quando compramos um produto conscientes de que sua produção envolve o trabalho escravo infantil ou qualquer tipo de abuso ou atividade ilegal, estamos indiretamente financiando essas práticas. O consumidor tem um grande poder nas mãos: mandar uma mensagem com a sua carteira. Exatamente. Evitar comprar com empresas que não garantem a segurança ou a integridade dos trabalhadores dá o recado de que não seremos coniventes com esse tipo de atitude.

Atualmente, algumas organizações criaram selos que garantem produtos completamente sustentáveis. Procurar esses selos pode ser uma boa saída. Se não conseguir encontrar, procure saber se a marca que você consome é transparente com relação à sua produção.

Outra maneira de nos levantarmos em favor das crianças que têm sido injustiçadas e abusadas, é trazendo esse assunto à tona, falando sobre essa realidade a outras pessoas, em nossas rodas de amigos. Podemos mandar e-mails e mensagens pelas redes sociais às grandes produtoras de chocolate, dizendo que nos importamos com a maneira com que seus produtos são produzidos. Quanto mais pessoas estiverem cientes, maior vai ser a pressão nas empresas.

Quando as grandes organizações sabem que estão sendo observadas, procuram maneiras de garantir a satisfação do seu público-alvo. Esse é um grande passo em direção da extinção completa da escravidão moderna e demonstra o poder dos consumidores levantando a sua voz – e as suas carteiras – em favor da justiça.

Uma maneira de fazer uma Páscoa mais feliz para todo o mundo, é garantindo que não vamos pagar pela exploração de nenhuma criança, seja onde for.

As sete marcas de chocolate que utilizam trabalho escravo infantil:

Algumas empresas têm sido acusadas de fechar os olhos para as violações de direitos humanos por parte dos produtores de cacau na África Ocidental. São elas:

- Hershey’s
- Mars
- Nestlé
- ADM Cocoa
- Godiva
- Fowler’s Chocolate
- Kraft

Algumas organizações garantem a produção sustentável de produtos provenientes do cacau. Quando for comprar o seu chocolate ou ovo de Páscoa, procure por estes selos:

rainforestRainforest Alliance
http://www.rainforest-alliance.org/

 

fairtradeFairtrade Foundation
http://www.fairtrade.org.uk/en

 

UTZUTZ
https://www.utz.org/


Assista ao documentário “The Dark Side of Chocolate” (“O Lado Negro do Chocolate”), que fala sobre o tráfico de crianças e o trabalho escravo infantil na Costa do Marfim.