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Olho no olho

Conversas face a face são o melhor colírio

Não há uma estatística que mostre o aumento da venda de colírios no mundo nos últimos 20 anos, mesmo sabendo que o que tem crescido é o número de consultas pela chamada Síndrome do Olho Seco. Ela ocorre quando existe a falta de produção de lágrima ou quando esta está alterada em algum de seus componentes, e um dos fatores que podem provocá-la é a redução de piscadas, algo muito comum para quem passa muito tempo frente a uma tela.

Box olhonoolhoJustamente uma pesquisa recente da Global Web Index, empresa que compila métricas do mundo digital, descobriu que os brasileiros ocupam o terceiro lugar do ranking mundial entre os que passam mais tempo on-line por meio de dispositivos móveis.

Algo mais assustador ainda é que, um ano antes, a empresa britânica especializada em marketing Millward Brown tinha apresentado um relatório que indicava a quantidade de tempo que usuários de diversos países passavam por dia frente a uma tela - qualquer que seja. Os brasileiros? Sete horas! Quarto lugar do ranking.

É verdade que o ritmo de vida tem mudado constantemente. Num mundo de pendências que se tornam emergências tão rápido que nem tempo tiveram de ser catalogadas como urgências, as relações virtuais derrotaram facilmente a “vida real”.

O sociólogo Zygmut Bauman observa inteligentemente no seu livro “44 Cartas do Mundo Líquido Moderno”: “O contato face a face é substituído pelo contato tela a tela dos monitores, smartphones ou tablets; as superfícies é que entram em contato. O que se perde é a intimidade, a profundidade e durabilidade da relação e dos laços humanos. Fazer contato com o olhar, reconhecendo a proximidade física de outro ser humano, parece perda de tempo.”

Quem vai querer conversar com parentes quando os amigos estão disponíveis na tela do celular? E esses “amigos” são incontáveis, de uma diversidade fascinante; e estão no Facebook, no Whatsapp, no Instagram, no Snapchat. Já afirmava Saramago que as relações humanas se apresentam como verdadeiros labirintos, nos conduzindo inevitavelmente à perplexidade. Mas a grande revolução da “conectividade humana” não tem colaborado em nada para resolvê-las. Muito pelo contrário, levou-as a um novo patamar de complexidade, principalmente nas famílias.

Podemos escapar de qualquer situação desconfortável ou de qualquer tentativa de diálogo “olho no olho” mantendo os dedos ocupados para digitar uma mensagem a ser enviada a alguém que está fisicamente ausente - ou próximo, tanto faz, a questão é manter os olhos na tela. Nesse momento, nada ocupa a atenção a não ser o “contato”. O mundo pode cair ao redor, mas a resposta na ponta da língua é sempre: “É rapidinho, estou acabando aqui”.

É um meme, um vídeo, uma resposta a uma pergunta complexa, um versículo, o que for. Temos na palma da mão aparelhos inteligentes capazes de nos proporcionar de imediato todo o conhecimento disponível. E isso parece nos dar o poder para absolutamente tudo. É como se não precisássemos de mais nada.

Os olhos secos são o diagnóstico de uma sociedade que tem perdido sua capacidade de expressar seus verdadeiros sentimentos. A falta de diálogo no ambiente familiar tem se multiplicado ao ponto de destruir quase por completo sua harmonia e seu convívio.

O diálogo, não através de uma tela, mas “olho no olho”, permite conhecer e entender as necessidades de um e do outro. Coloca as pessoas em um comportamento de abertura recíproca e ajuda a procurar um caminho em busca de um interesse comum.

É verdade que há uma longa história de incompreensão recíproca entre gerações, entre “os velhos” e “os jovens”, entre pais e filhos, e de consequente desconfiança mútua, a qual tornou-se ainda mais visível em nossa era, marcada por profundas, contínuas e aceleradas mudanças nas condições de vida. Mas o que aproxima esses extremos e nos torna mais humanos é o diálogo. Onde há lugar para a lágrima, para rir com os que riem e chorar com os que choram, para expressar o amor de Deus e colocar em prática nossa tarefa de sermos embaixadores da paz.

Não há emoji que supere a expressão e o calor de um abraço. É isso que precisamos entender. Não há valor maior que o de poder nos comunicar como sociedade com o diálogo. Fortalecer nossos valores e princípios familiares na comunhão de pais e filhos longe das telas.

A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. É nesse contexto que se expressam com força o perdão, a compaixão, a gratidão. Onde se ouvem expressões como “desculpe-me”, “com licença”, “obrigado”.

No final de cada dia, o Senhor se encontrava no Jardim com Adão para conversar com ele. O diálogo está em nós. Deus o deu como forma de comunicação entre nós e também com Ele. É a ferramenta mais poderosa que nós temos para nos desenvolver como sociedade. Não podemos deixar que seu valor se perca. Não podemos deixar que nossos olhos sequem e perder a capacidade de expressar nossos verdadeiros sentimentos. O diálogo é, sem dúvida, o melhor colírio para nossa sociedade.