viveramfelizes02

E Viveram Felizes Para Sempre... #SQN

Famílias imperfeitas não significam famílias ruins

Não é de hoje que famílias mudam sua constituição estrutural por consequência social. As composições familiares mudam ao longo do Box eviveramfelizestempo, da história, das condições, das conjunturas, etc. No entanto, percebo ganhar cada vez mais força essa tal exigência por famílias ideais. Quando falamos nesse assunto, devemos superar aquela concepção falsa de banco de imagens que estampam nossas revistas ou folhetos, com famílias “perfeitas” compostas por pai, mãe, um casal de filhos lindos, com dentes indefectíveis – a famosa família “Doriana”, sabe?

Temos que nos abrir para a realidade das famílias que têm de aprender a viver sobre outra lógica, lares em que a mulher é arrimo, casas em que o irmão mais velho tem de assumir o papel de pai, famílias que estão vivendo pela metade por conta do crime, pelo crack, pela exploração sexual. Essa é a realidade em que vivemos. E temos de parar de fingir que não vemos.

A realidade de boa parte das famílias brasileiras, bem diferente dessas tais “perfeitas”, tem mais a ver, por exemplo, com mães que acordam às 4 horas da manhã e pegam três conduções para ir trabalhar na casa de uma patroa que sequer diz “bom dia”, porque não considera o trabalhador doméstico gente. No final do dia, essas mesmas mães voltam para casa, fazem o jantar dos filhos, lavam, passam... E, não raro, ainda preparam alguma coisa especial porque o dia seguinte é sábado: dia de visitar o marido na prisão.

Quando Jesus disse “no mundo tereis aflições” (Jo. 16.33), Ele não estava entregando uma frase de efeito e nem se dirigindo àqueles que se comportam mal, como se de um castigo se tratasse - que coisa mais infantil! Ele disse isso porque, de fato, temos aflições na vida. E não são aflições de contos de fadas, em que, no final, o príncipe salva a princesa, os dois se casam, têm filhos e vivem felizes para sempre. “A vida é real e de viés”, escreveu um importante cantor e compositor da música brasileira. A vida é real, sim. Com pessoas e problemas reais.

Por vezes, a impressão que me dá é de que sequer a Igreja tem escapado da ditadura desse padrão de família “encantada”. Na verdade, parece que, em alguns casos, vive num tipo de “bolha”, alheia a vários dos dramas sociais da comunidade em que está inserida. Isso faz com que se busque, incessantemente, um ideal de estilo de vida inatingível, que jamais foi prometido a nós por Jesus – a não ser quando Ele estiver entre nós, com Seu governo estabelecido.

O desejo de ter e de viver uma vida perfeita demonstra, claramente, o grau de infantilização das nossas relações, inclusive da que temos com Deus. Quanto mais maduros somos, mais temos consciência das contingências de viver nesse mundo, das consequências das nossas decisões, da falência do nosso corpo, enfim, da nossa finitude. Isso tudo se traduz em imperfeição, não no contrário. Pessoas imperfeitas geram relações imperfeitas, logo, teremos famílias imperfeitas, o que não significa – de forma alguma! – famílias ruins. Significa, sim, famílias reais, famílias que cometem falhas, pais que erram com os filhos e vice-versa, irmãos que falham entre si. Ou seja, relacionamentos cheios de humanidade e plenos de imperfeição. Contudo, carregados de amor e emoção.

Por isso, se faz necessário fazer a distinção entre imperfeição e falta de afeto. Não é porque não é perfeito, que o afeto não existe. Aliás, está escrito que “o amor encobre uma multidão de transgressões”, ou seja, só o amor cobre as nossas falhas, as nossas faltas, as imperfeições das nossas relações. É por essa razão que famílias sobrevivem aos dramas sociais que mencionamos, porque o amor sobrepuja as condições.

Há que haver um amadurecimento de nossa parte quanto à forma de avaliar as nossas relações e também na forma de conceber o que é ser “uma família feliz”. Quanto mais sensíveis, maduros e generosos formos em relação às nossas próprias relações, mais o seremos em relação à nossa comunidade em geral, e até poderemos ser propositivos – como corpo de Cristo – para tratar das questões sociais que envolvem tudo isso, pois a Igreja não pode se calar diante da mãe com o filho no crack ou com o marido preso, não pode se calar diante das famílias em vulnerabilidade social extrema, sem direitos, etc.

Realidades como essa são mais do que corriqueiras, são cotidianas e estão longe de serem contos de fadas. Príncipe e Cinderela? De jeito nenhum! Agora, sapo e gata borralheira tem de monte. O grande final? Pode ser feliz, sim! Como disse, tudo depende da nossa ótica, da maturidade, da expectativa, do afeto e do amor. Sendo assim, você escolhe o final.