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Como ser cristão hoje?

O bem comum segundo o Evangelho

O que leva um capitão de navio negreiro se tornar um abolicionista? O que faz um homem conhecido por ser arrogante, insubordinado, instável e impaciente, se tornar comprometido com a causa do outro, sendo um dos responsáveis por uma transformação profunda em seu país?

A história do britânico John Newton nos dá a resposta. Criado em seus primeiros anos de vida por uma mãe cristã, ele aprendeu os valores bíblicos desde cedo, mas escolheu seguir uma vida de libertinagem e amor ao pecado. Começou a trabalhar no mar e acabou se tornando capitão de um navio que fazia o tráfico de escravos negros, comércio sobre o qual a Inglaterra tinha monopólio na época e que contava com os meios de transporte mais cruéis possíveis.

Depois de enfrentar uma forte tempestade em uma viagem de volta para casa, Newton sentiu muito medo de morrer e orou para que Deus o ajudasse. Apesar de ter tido um grande impacto naquele dia, ele voltou para sua antiga vida. Mas, tempos depois, acometido por malária, começou a refletir sobre sua vida mais uma vez e percebeu como a graça e a misericórdia de Deus o cercavam. Foi quando se entregou completamente ao Senhor e se dispôs a fazer o que Ele quisesse.Box comoser02SET18

A grande transformação aconteceu justamente em seu trabalho. Logo após a sua conversão, ele realizava cultos de oração e adoração com os escravos que transportava. Mas, como capitão, ainda usava instrumentos de tortura para conter rebeliões. Foi então que percebeu o quanto o tráfico de escravos e sua participação nele eram ultrajantes e repulsivos. Como aquilo não condizia com o tipo de pessoa que a Bíblia o instruía a ser.

Convencido pelo Espírito Santo, Newton abandonou seu trabalho como capitão, se tornou pastor e passou a trabalhar incansavelmente para extinguir a escravidão. Nessa caminhada, se tornou conselheiro e orientador de William Wilberforce, que atuava no Parlamento Britânico a favor da abolição da escravatura.

Foi nessa época que compôs uma das canções mais conhecidas da história do cristianismo, “Amazing Grace” (“Maravilhosa Graça”, em português), contando sua história de redenção.

Meses antes de sua morte, John Newton viu o fruto de seu trabalho, a Inglaterra aprovou o Decreto da Abolição do Tráfico de Escravos em 1807. Uma transformação tão profunda se explica nas próprias palavras de “Amazing Grace”: “Maravilhosa graça, quão doce é o som que salvou um miserável como eu. Eu estava perdido, mas fui encontrado. Estava cego, mas agora vejo”.

É exatamente isso que a graça e a misericórdia de Deus fazem, transformam a nossa maneira de ver, o nosso caráter. Tiram a nossa atenção de nós mesmos e a colocam no nosso Salvador e naqueles que também precisam conhecê-lo, naqueles que precisam de amor, de liberdade, de um abraço, de água, de pão.

John Newton transformou a história da sua nação e, junto com ela, a história de milhões de pessoas. Tudo isso porque ele teve seu caráter transformado pela graça e pela misericórdia de Deus.

O Senhor nos chama a responder às necessidades deste mundo. Ele já transformou a nossa vida e o nosso caráter, já nos deu esperança e agora espera que nós façamos o mesmo pelas outras pessoas. Antes, éramos cegos para o nosso próximo, mas agora podemos ver. Porque, assim como disse o apóstolo Paulo:

“Somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos as boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” (Ef. 2.10).

A RAZÃO NÃO MATOU A FÉ

No século XVIII, o Iluminismo tirou Deus do centro do pensamento ocidental e colocou o homem e a razão no seu lugar. Mas a busca do bem comum não achou respostas satisfatórias e o século XX viu acontecer duas Grandes Guerras, governos totalitários, extermínios em massa, genocídios, massacres e toda sorte de crimes contra a humanidade.

O mundo percebeu que a ciência e a razão forneceram avanços expressivos, mas elas sozinhas não tornam o ser humano mais civilizado e solidário. Assim, as pessoas continuam em busca de respostas existenciais e melhores condições de vida, que façam desse planeta um lugar melhor de se viver. Será que o cristianismo, pelo menos da forma como é praticado hoje, pode resolver essa questão?

No Brasil, a parcela evangélica da igreja vive um crescimento numérico bastante expressivo. Segundo o IBGE, entre os anos 2000 e 2010, o número de membros cresceu 61% e poderá ser maioria em 10 ou 15 anos. Mas, com exceção de algumas iniciativas isoladas, infelizmente, aquele desenvolvimento quantitativo não tem redundado em ações geradoras de mudanças e bem-estar social.

FÉ OCIOSA X FÉ COERCITIVA

O teólogo croata Miroslav Volf aponta em seu livro “Uma Fé Pública” duas falhas da fé: a ociosidade e a coerção, “e elas correspondem grosso modo às duas espécies de pecados categorizados na tradição cristã: pecados de omissão, nos quais deixamos de fazer o que devemos fazer, e pecados de comissão, nos quais fazemos o que não devemos fazer”.

A fé ociosa é aquela que apresenta uma grande imobilidade e apatia frente ao caos social em que nosso país se encontra. Ao se deparar diariamente com situações de exploração, miséria e injustiças crescentes, muitos cristãos se acomodam a uma postura de indiferença e isolamento frente às necessidades de uma população que segue abandonada, carente e à margem da sociedade organizada.

Esse tipo de fé foi contaminado pelo relativismo e individualismo modernos que tornam as questões religiosas em atividades pessoais e privadas. Vive-se essa fé no interior de sua alma ou junto com as pessoas que pensam de forma igual, mas não nos espaços públicos (como as ruas e praças) ou institucionais (como as escolas, hospitais e empresas). Afinal, no mundo globalizado, ninguém tem nada a ver com a vida do outro, e cada um faz o que quiser de sua própria vida.

A fé coercitiva, por sua vez, é aquela que se apresenta hiperativa, impondo seu próprio modo de vida e oprimindo os que não a querem. Os praticantes dessa fé distorcem os valores cristãos quando interpretam a pobreza, a miséria, as doenças, a falta de recursos e os demais problemas sociais como maldições na vida daqueles que não professam a mesma crença.

Esse tipo de fé condiciona toda e qualquer ação na direção do próximo e do bem comum à conversão espiritual das pessoas. É uma relação de troca: se entregar sua vida a Cristo, haverá ajuda e bênção; se não, a necessidade continuará sem atenção, não a merece. Para essa fé, o mundo só será melhor quando seus ideais forem obrigatórios em toda sociedade, quer ela concorde ou não.

UMA FÉ QUE PRODUZA OBRAS

Outra questão que costuma moldar o pensamento cristão é o velho debate entre fé e obras. Muitos religiosos, em várias épocas, estabeleceram a salvação como um prêmio a quem praticasse boas ações.

A Reforma Protestante, no século XVI, recuperou o princípio bíblico da gratuidade da salvação: somos salvos por meio da fé (Ef. 2.8). A partir daí muitos começaram a desprezar ou desvalorizar uma vida voltada à prática de boas obras, uma vez que elas não são condição para a entrada na vida eterna.

As obras não são condição, porém são evidências de uma fé viva e operante. A falta de obras demonstra uma vida espiritualmente morta.

A epístola de Tiago apoia e reforça esse princípio cristão de uma vida comprometida para com as necessidades do próximo: “Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser:

"Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se", sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta” (Tg. 2.15-17).

Se a fé que temos não é capaz de gerar em nós compaixão, sensibilidade e compromisso com as necessidades de nossos irmãos e do mundo, então é melhor não dizermos que somos cristãos, pois em nada somos diferentes dos demais.

Nossa fé tem que ser um elemento gerador de condutas e ações efetivas que causem impacto no mundo e promovam o bem comum!

JUSTIÇA SOCIAL: CIDADANIA E CIVISMO

A Bíblia declara que Deus é justo, e Ele deseja que Seus filhos manifestem Sua justiça na Terra. Justiça fala daquilo que é justo e correto, como por exemplo o respeito à vida e à igualdade de direitos de todas as pessoas. Isso nos leva ao exercício da cidadania, que é fazer valer esses direitos e cumprir os deveres como membros de uma sociedade. Defender o interesse público e o bem-estar coletivo é um ato de civismo e cidadania.

Assim, todo cristão precisa estar envolvido ativamente na construção de uma sociedade mais justa, onde sejam cultivados valores como respeito, lealdade, compaixão, misericórdia, bondade, dignidade humana, entre outros.

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Mq. 6.8).

Entretanto, olhando para a nossa nação, enxergamos uma crise sem precedentes em sua história: não apenas social, mas também moral, ética, familiar e espiritual. Não basta apenas termos conhecimento da situação e nos indignarmos. Será que a responsabilidade por mudanças está apenas a cargo de nossos políticos e governantes? Se realmente temos uma experiência de real transformação de vida, isto tem que gerar em nós uma resposta. Mas o que podemos fazer?

RESPONSABILIDADE SOCIAL DO CRISTÃO

Nós cristãos podemos e devemos participar de modo voluntário e consciente em atividades de públicas que promovam a prosperidade humana e o bem comum.

Segundo o já citado teólogo Miroslav Volf, “os seguidores de Cristo se engajam no mundo com todo o seu ser” e esse “engajamento diz respeito a todas as dimensões de uma cultura”. E completa explicando que isso pode acontecer de dois modos: no testemunho para não cristãos e na participação na vida política.

Compartilhando sabedoria (testemunho para não cristãos)

A Bíblia está repleta de princípios de sabedoria para um estilo de vida “que possibilita a prosperidade de pessoas, comunidades e de toda a criação”. Há diversos conselhos, provérbios e mandamentos recíprocos nas Escrituras Sagradas que promovem a paz, a boa convivência e o desenvolvimento dos relacionamentos. “Sábios são os seres humanos que seguem esse caminho”.

Como cristãos responsáveis temos o dever de compartilhar toda essa sabedoria com as pessoas à nossa volta, quer elas sejam cristãs ou não. Nosso estilo de vida precisa ser visto, apreciado e absorvido pela sociedade onde estamos inseridos.

“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt. 5.16).

Engajamento público (participação na vida política)

Como vimos anteriormente, nem a fé ociosa nem a coercitiva correspondem ao desejo de Deus para Seu povo. Conscientes desses perigos, devemos participar sim da vida política e pública da nossa nação; não como dominadores, mas como uma voz (entre outras) em favor da justiça social, colaborando “na contenção da implacável e crescente onda de miséria humana (...): epidemias, fome, violação de direitos ou poluição ambiental”.

Todo cristão deve exercer com sabedoria seu direito de voto, acompanhar o mandato dos seus políticos, cobrar dos governantes o cumprimento das promessas de campanha, fiscalizar as políticas públicas (na educação, saúde, segurança etc.).

Outra forma de engajamento público é se voluntariar em ONGs, empresas ou organizações que desenvolvem projetos ambientais, esportivos, culturais, de assistência social e tantas outras formas de contribuir para o bem comum.

“Quanto a vocês, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts. 3.13).

Diante do ensino da Palavra de Deus, do exemplo da vida de Jesus e da história da Igreja, o cristão não pode ignorar sua responsabilidade social. A nova vida que alegamos ter deve nos impulsionar na direção da justiça e do bem comum. Afinal, a fé sem obras é morta.

 

PA