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Tal pai, tal filho

É impossível refletir sobre paternidade sem considerar a oração que Jesus ensinou aos Seus discípulos, a oração do Pai-Nosso. O texto de Lucas 11 diz que eles pediram a Jesus:

“Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos discípulos dele”.

Esse pedido é um tanto quanto curioso, porque se tinha uma coisa que todo judeu sabia era orar. Os judeus eram zelosos nas “disciplinas espirituais”. O que os discípulos queriam saber era sobre o centro da mensagem de Jesus. E Ele prontamente comunica: Deus, nosso Pai querido, Seu Reino de justiça contra as injustiças terrenas e a humanidade como família. Jesus apresenta basicamente dois movimentos: o que sobe para a vontade do Pai e é sobre o Seu Reino, e outro que desce ao cotidiano da vida para resolver as realidades de injustiça e miséria. Não é possível compreender a paternidade de Deus sem entender esses dois movimentos.

É comum que a figura da paternidade represente a autoridade suprema, uma figura rígida e autoritária. Alguns filhos, por exemplo, têm “medo” do pai. Não se abrem ao diálogo porque o pai está quase sempre com o rosto sisudo, representação da autoridade. É interessante investigar porque Jesus traz a figura paterna para a oração, uma vez que a oração representa certa fragilidade. Ali diante de Deus, coloca- se em completa exposição: segredos são revelados, pecados são confessados, sonhos são compartilhados. Por que Jesus traz para esse momento uma representação tão significante? Os discípulos sabiam que a figura “Pai” era uma figura para falar a respeito de Deus, assim como “Senhor dos exércitos”, “o Deus que cura”, “o Deus que provê”. Mas dirigir-se a Deus usando a expressão “Pai”, nunca, jamais. Jesus foi o primeiro.

A novidade não para por aí. Se pegarmos os originais da oração do Pai-Nosso, veremos que o termo “Pai” é dito por Jesus como “Aba”. “Aba” era uma expressão muito usada pelas crianças que estavam aprendendo a falar. Por exemplo, Deus me deu a oportunidade de ser pai de duas lindas meninas. Me lembro de quando minhas filhas estavam aprendendo a falar. As expressões eram: “pa”, “papi”, “papa” e, por fim, “papai”. No contexto de Jesus, essas palavras poderiam ser traduzidas por “Aba”, a forma infantil de se referir ao pai. Mas, por que Jesus faz essa referência? Como Ele percebe Deus? Como um general? Como um poder extraordinário? Não, Ele percebe como Pai. Depois disso, Jesus começa uma sequência de palavras e expressões riquíssimas.Box talpaiAGO18

Há aqui uma mensagem muito importante para os nossos dias. O que Jesus quer nos ensinar é que é possível uma nova forma de ser pai e de ser filho. O pai não é aquele que impõe algo ao filho com arrogância e violência. Ser pai é sinal de relacionamento. Um relacionamento que se dá pela via da autoridade sim. Contudo, uma autoridade participativa, sem impor, sem ofender. O Pai apresentado por Jesus nos ensina que a vida é feita de escolhas e que a todo momento nos tornamos responsáveis por elas. Mas que, apesar de algumas vezes escolhermos caminhos difíceis, o Pai está sempre à disposição de nos ouvir e perdoar. A nós e a nossos irmãos.

Em contrapartida, Jesus também apresenta um jeito de ser filho. Na oração do Pai-Nosso, Ele deixa claro que a todos foi oferecida a oportunidade de reconhecer a paternidade que há em Deus. Essa paternidade é reconhecida (ou não) pelo próprio filho. Deste modo, a ninguém foi dada a prerrogativa de dizer quem é filho ou não. O Pai é nosso, é comunhão. O perdão é nosso, é solidariedade. O pão é nosso, é partilha. Numa sociedade marcada pelo individualismo e a indiferença, não há quem não necessite de alguma expressão dessa paternidade. Os que uniram o Pai-Nosso com o pão nosso podem dizer amém.

Portanto, se há uma forma carinhosa de ser pai e se há um jeito solidário de chamar toda a humanidade de irmãos, é preciso haver luta para que todos e todas desfrutem dessa realidade. Se a toda humanidade foi dada a oportunidade de reconhecer a paternidade que há em Deus, os filhos que obtiveram tal privilégio precisam ser agentes da justiça do Pai. Os filhos do Pai, que é amor, erguem suas vozes a fim de que cesse toda a maldade e injustiça. Porque só assim se estabelecerá o Reino de Deus Pai.

 

CarlosBezerraJr