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“Nunca oramos tão pouco”

Oito perguntas a Tim Keller sobre oração

O autor e pastor Timothy Keller lançou um novo livro sobre oração. Escrito junto com sua esposa Kathy, “Os Cânticos de Jesus” fala sobre os Salmos e ensina como podemos orar usando as palavras dos salmistas.

Em uma entrevista para o site “Desiring God” (“Desejando Deus”, em tradução livre), ele fala sobre essa disciplina tão negligenciada em nossos dias.

1. Entre os cristãos hoje, quão generalizada é a falta de oração e o que isso revela sobre a nossa saúde espiritual?

Sabemos que a maior parte das pessoas tem poucos momentos de solitude. Há cada vez menos tempo em que nos desligamos, quando não estamos ouvindo algo ou falando com alguém. E isso acontece por causa da onipresença da mídia, da internet e dos aparelhos eletrônicos.

Todos que eu conheço parecem tão ocupados e sempre de olho no relógio, que eu acho que cada vez há menos tempo para a oração. Há cada vez menos momentos em que as pessoas vão a um lugar isolado para orar. Tenho certeza de que nunca oramos tão pouco, e isso mostra que a nossa saúde espiritual está em queda livre.

2. Uma vida de oração é impossível sem solitude e sem a Palavra de Deus. Você falou sobre um momento da sua vida em que foi conduzido por um desespero para orar, e então abriu o livro de Salmos e orou através dele. Como você fez isso e o que aprendeu nesse período?

Fico feliz de fala sobre isso. Eu percebi que os salmos são extremamente importantes para a oração. Talvez seja porque eu li um livro de Eugene Peterson alguns anos atrás, chamado “Answering God” (“Respondendo Deus”, em tradução livre). Ele defende que só oramos direito quando estamos mergulhados nas Escrituras. Aprendemos nosso vocabulário de oração da mesma forma que uma criança aprende a falar – ela mergulha na linguagem, e fala. Peterson diz que Salmos é o livro de oração da Bíblia, e que a nossa vida de oração seria enriquecida de forma imensurável se os conhecermos profundamente. Então, esse foi o primeiro passo. Eu percebi que precisava fazer isso, mas não sabia como.

Por causa disso, passei alguns anos estudando os Salmos. Em certo ponto, percebi que alguns deles eram repetitivos ou difíceis de entender, então não conseguia usá-los nas minhas orações. Foi quando decidi que trabalharia em todos eles, os 150. E, para isso, usei vários comentários bíblicos.

Estudei cada um dos salmos e escrevi uma pequena descrição do que achava que cada um dele se tratava e versículos-chave que poderia usar em minhas orações. Em uma letra 9 no Word, eu praticamente escrevi um resumo do livro de Salmos em 20 páginas. E eu uso esse resumo nos meus momentos de oração.

Leio Salmos de manhã e à tarde, e então eu oro. Às vezes eu oro exatamente um salmo, mas muitas vezes, apenas leio um deles e oro. Passo pelos 150 salmos todo mês. Foi isso que eu aprendi e é como faço agora.

Essa prática, então, formou sua linguagem de oração?

Sim. É por isso que você não precisa pegar um salmo e, literalmente, transformá-lo na sua oração, mesmo que isso, algumas vezes, possa ser poderoso. Apenas ler todos os salmos a cada mês e orar todos os dias, depois de ler alguns deles, muda o nosso vocabulário, nossa linguagem, nossa atitude.

Por um lado, os textos dos salmistas mostram que podemos estar tristes na presença de Deus. De certo modo, eles nos dão permissão para derramar nossas reclamações de um jeito que pareceria inapropriado se não estivesse nas Escrituras. Mas, por outro lado, os salmos demandam que, no final, nos prostremos em reverência à soberania de Deus de uma maneira que a cultura moderna não nos ensina a fazer.

Alec Motyer disse que os salmos foram escritos por pessoas que sabiam muito menos sobre Deus do que nós sabemos, e amavam a Deus muito mais do que nós amamos. Ele estava dizendo que os salmistas não sabiam sobre a cruz, há diversos motivos para dizer que eles não sabiam tanto sobre o propósito de salvação de Deus quanto eu sei. Mas, mesmo assim, eles amavam a Deus muito mais do que nós amamos.

3. Você faz um alerta sobre passarmos do estudo bíblico direto para a oração, pulando um passo crucial – a meditação. Por que costumamos fazer isso?

É possível que tenhamos o costume de pular a meditação porque vivemos em uma cultura que não encoraja a solitude e a reflexão. Também é possível que tendamos um pouco de mais ao racionalismo. Então, nossa aproximação da Bíblia, muitas vezes, é para entender o seu significado através da gramática e do contexto histórico. Quando conseguimos isso, nada muda no nosso coração.

Fico preocupado com pessoas que dizem: “leia a Bíblia, mas não pense em teologia, deixe que Deus fale com você”. Deus fala conosco através da Palavra quando fazemos uma boa exegese e entendemos o que o texto está dizendo. Martinho Lutero acreditava que precisamos extrair a verdade que aprendemos através da exegese e, uma vez que fizemos isso, precisamos entender o quanto disso está no nosso coração.

Se nosso coração está frio, isso afeta a nossa oração. Sem meditação, tendemos a ir direto às petições e súplicas, e gastamos pouco tempo em adoração e confissão. Quando nosso coração está aquecido pelas verdades da Palavra, então começamos a adorar a Deus e a confessar os nossos pecados.

Então, a chave para uma vida frutífera de oração é a convicção de que a Bíblia foi escrita, verdadeiramente e pessoalmente, para nós?

Sim. Deuteronômio 29:29 diz:

“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei”.

A Bíblia é a parte da vontade e da mente de Deus que Ele quer que conheçamos. E a maneira como entendemos o que Ele esta dizendo é através da exegese. Então, depois de discernirmos o significado do texto, precisamos trabalhar em nosso coração para que ele se torne pessoal e não apenas um conceito em nossa mente.

4. Nós somos inconstantes. Com todos os benefícios da tecnologia digital, somos tentados a nos distrair com as redes sociais, e-mails, WhatsApp. Que conselho você daria a um cristão que é seduzido pelas distrações quando está tentando orar?

Minha esposa uma vez usou esta ilustração: “Se o médico disser que você tem uma doença mortal e que, a menos que tome certo medicamento todas as noites, estará morto pela manhã. Se este fosse o caso, você nunca deixaria de tomar as pílulas. Nunca diria que estava cansado demais, que estava assistindo a um filme ou que se esqueceu”.

E, então, as pessoas perguntam “Como consigo começar a orar? Como posso lidar com as distrações?” Talvez você não acredite que precisa da oração. Este é um problema teológico e espiritual, e não há nada que eu possa fazer por você além de dizer que você precisa colocar sua mente e o seu coração na oração.

Dito isso, uma vez que determinamos que a oração é algo que devemos fazer, em nosso tempo com Deus às vezes é difícil não sermos distraídos. E é aí que a meditação entra.

A meditação em uma passagem das Escrituras nos ajuda a não nos distrairmos enquanto oramos. Lemos o texto e perguntamos: “Certo, o que isso significa para mim?”, “Como louvo a Deus por isso?”, “Como confesso algo assim?”, “Como devo pedir por isso?”. A meditação aquece o nosso coração e envolve a nossa mente, então não somos distraídos.

A resposta é dupla. Precisamos decidir que orar é algo que devemos fazer, e que não há nada que alguém possa nos ajudar para isso. E, uma vez que entendemos isso, a meditação vai ajudar a impedir que a nossa mente fique vagando.

5. Você diz que “a oração é nosso meio de entrar na alegria de Deus”. Explique.

Eu falo sobre isso quando cito “The end for wich God created the world” (“O motivo pelo qual Deus criou o mundo”, em tradução livre), grande trabalho de Jonathan Edwards. A tese de Edwards, que tem sido disseminada há décadas pelo pastor John Piper, é a de que Deus se deleita em Sua própria glória. E isso envolve a Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo glorificam uns aos outros.

O fato é que Deus é infinitamente feliz por quem Ele é, e isso é se deleitar em Sua própria glória. Quando estamos glorificando ao Senhor, quando O adoramos, é quando entramos em Sua alegria, porque estamos fazendo o que Ele faz e experimentando a mesma felicidade que Ele sente.

6. Algumas passagens, como Lucas 11:11-13, dizem que uma vida frutífera de oração precisa da convicção de que Deus é nosso Pai. Quanto essa convicção é realmente chave para nós?

Ela é fundamental. Se não fosse, Jesus não teria começado Sua oração com as palavras “Pai nosso”. Muitos estudiosos da Bíblia podem discordar de mim, mas eu acho que Jesus nunca se dirigiu a Deus sem chamá-lo de Pai. Por isso, essa convicção é fundamental. E a palavra “Pai” – reconhecendo que Deus é o nosso Pai – é uma miniatura do evangelho. Se Deus fosse o nosso chefe, mesmo que Ele seja bom, nunca estaria realmente comprometido conosco. Ele poderia até nos dar algumas chances quando errássemos, mas iria acabar nos mandando embora.

Então, se nos esquecemos de que Deus é nosso Pai, podemos chegar a Ele em oração de um jeito mercenário, dizendo: “Eu vou fazer isso, e isso, e isso. E você fica me devendo isso, e isso, e isso”. Primeiro, isso destrói a nossa habilidade de adorar a Deus. Segundo, faz da oração uma maneira de manipular Deus.

Eu tenho três filhos. Enquanto cresciam, cada um deles passou por fases diferentes. Mas, quando um estava em um período mais difícil, sendo desobediente ou rebelde, como pai, o meu coração se aproximava mais dele. Isso me deixava mais envolvido com ele, porque eu não sou seu chefe, sou seu pai. Quando chamamos Deus de Pai, o fazemos no nome de Jesus, por causa da Sua graça. Porque Jesus morreu por nós, Deus está comprometido conosco.

Isso não quer dizer que podemos pecar descontroladamente. E a razão é que, se quebramos as regras do nosso chefe, não vamos afetá-lo tanto quanto vamos entristecer o coração do nosso Pai se quebrarmos os Seus mandamentos.

Então, eu diria que chamar Deus de Pai significa, por um lado, que temos certeza da Sua graça e de que Ele sempre vai nos ouvir. Isso fortalece as nossas petições. Mas, por outro lado, também significa que precisamos confessar os nossos pecados, porque esse Deus maravilhoso fez tudo por nós e nos fez parte da Sua família pelo preço do sacrifício de Jesus. Preciso obedecê-lo por causa de Sua graça.

Chamar Deus de Pai eleva tudo o que fazemos em oração.

7. Você diz que a oração nos dá um profundo conhecimento de nós mesmos. Como isso acontece?

C.S. Lewis faz uma ilustração sobre isso. Se somos pessoas orgulhosas, nunca poderemos ver a Deus, porque o orgulhoso que está sempre olhando todos de cima não pode ver alguém que está acima dele, que é maior do que ele. Com esse exemplo, entendo que é na presença de Deus que aprendemos a ser humildes. Eu nunca sei realmente o quanto sou pecador até que esteja na presença de um Deus santo. Isso aconteceu com Isaías. Quando ele estava na presença de Deus, no capítulo 6, qual é a primeira coisa que ele diz? Não é: “Nossa, Você é tão santo!” Ele diz: “sou um homem de lábios impuros” (v. 5). Imediatamente, ele percebe o seu pecado, assim como quanto mais forte a luz é, mais vemos a sujeira em nossas mãos.

Quanto mais bonita uma pessoa é, mais feias as outras pessoas se sentem perto dela. Em outras palavras, quando vemos algo muito bom, enxergamos nossos defeitos. Por isso, não há nenhuma outra maneira de enxergar o quanto somos realmente pecadores e o que está errado conosco, a não ser nos aproximarmos de Deus em oração.

8. Em Tiago 4:3, lemos que há um tipo de oração que não funciona. Que tipo de oração é essa?

Tiago fala sobre orações em que pedimos de maneira egoísta ou apenas para gastar com desejos egoístas. Deus não vai nos dar uma coisa que não é boa para nós, assim como eu, como pai, não daria aos meus filhos algo que eles pediram, mas não é seguro ou os machucaria de alguma forma. Em seu livro sobre oração, J. I. Packer diz que não existe uma oração não respondida.

O que ele está tentando dizer é que nós podemos pedir uma coisa que não é boa para nós, e Deus, como um bom Pai, tenta nos dar o que pediríamos se soubéssemos o que Ele sabe, ou nos dá o que pedimos de outra maneira.

Há alguns pedidos que fazemos com motivações ruins. Talvez nem saibamos disso. Podem ser pedidos egoístas e orgulhosos, algo que tenha uma avaliação exagerada dos nossos dons. Deus não nos dá essas coisas, porque elas só seriam um combustível para o nosso orgulho.

Agora, podemos pedir algo que não é bom para nós com a melhor das motivações. Não estamos sendo egoístas e nem idólatras. Só não estaremos sendo sábios e Deus não vai dar isso para nós. Mas, os pedidos dirigidos pela idolatria são ainda piores e Deus, simplesmente, não vai nos dar o que pedimos.

(A entrevista foi traduzida diretamente do site Desiring God. Para ter acesso ao texto original, em inglês, acesse: https://www.desiringgod.org/articles/10-questions-on-prayer-with-tim-keller)

TimKeller