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Super-heróis

Descobrindo sua identidade através dos olhos de Deus

“Ser ou não ser, eis a questão.” Essa é uma das frases mais famosas da dramaturgia mundial. Pertence à primeira cena do terceiro ato de “Hamlet”, do inglês William Shakespeare, e esconde um profundo sentido filosófico que, ao longo do tempo, tem influenciado a literatura, o cinema e diferentes expressões culturais.

A questão da identidade é sempre pano de fundo das histórias em quadrinhos, desenhos e filmes que envolvem super-heróis. Uma máscara, uma capa ou até uns simples óculos, qualquer coisa serve para preservar a verdadeira identidade do personagem. Assim, ele consegue se transformar naquilo que não é na frente dos outros.

Em uma entrevista feita na Argentina em 1987, Roberto Gómez Bolaños, o mexicano famoso por interpretar Chaves e criador de diversos personagens, foi perguntado sobre o que pensava de heróis como o Super-Homem ou He-man. E respondeu: “Não são heróis. Herói é o Chapolin Colorado. E isso é sério! O heroísmo não consiste em não Box superheroisAGO17sentir medo, e sim superá-lo. Aqueles não têm medo. Batman e os demais são todo-poderosos e não podem ter medo. O Chapolin morre de medo, é fraco, toma decisões erradas. E consciente dessas deficiências, ele enfrenta o problema. Isso é um herói. E ele perde. Outra característica dos heróis, eles perdem muitas vezes. Depois suas ideias triunfam. Mas, pensem, quantos heróis fuzilados conhecemos?”

O que Bolaños queria dizer é que o verdadeiro herói é humano. Ele erra, sente medo, é humilde. Não se esconde por trás de uma máscara, mas usa sua fraqueza para tentar tirar daí alguma coisa que o faça melhor ou o leve a outro patamar.

Na estrutura familiar, o pai é quem mais facilmente é identificado com a imagem do super-herói. A figura masculina é associada como exemplo de proteção e força. É o exemplo. O ídolo. O espelho. É alguém sem fraquezas, sem medo. Ou será que não é?

Muitos homens têm escolhido usar uma identidade secreta, uma espécie de blindagem que os mostra todo-poderosos, mas que esconde, na verdade, fragilidades que, se expostas, gerariam muito mais empatia do que aquele peitoral supostamente “à prova de balas”. É preciso desconstruir a figura do herói que pode com tudo e todos.

Em 2 Coríntios 12, Paulo faz uma declaração surpreendente: “Foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar. Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse:

"Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (vs. 7-9).

O apóstolo estava sob ataque em Corinto. Seu caráter e apostolado tinham sido abertamente questionados. A igreja, que tinha sido fundada por ele, estava flertando com a apostasia. Assim, ao longo de 2 Coríntios, Paulo está defendendo suas credenciais apostólicas, algo muito estranho para um homem humilde que não gostava de falar sobre si mesmo.

A palavra traduzida como “espinho” no texto grego é skolops. Significa algo muito pontiagudo, geralmente de madeira. No grego clássico, muitas vezes, significa “estaca”. O tamanho deste objeto cortante quase não é tão importante quanto a gravidade da dor que inflige. É evidente que ele não está descrevendo uma espécie de tortura fatal, mas uma forte aflição constante, irritante, que parecia um tipo de tortura lenta. Paulo escolhe esta palavra precisamente porque evoca uma noção de dor torturante.

Satanás quis usar isso para o mal, Deus o tornou em bem. E aqui está um pequeno segredo:

“Sabemos que Deus faz com que todas as coisas cooperem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm. 8.28). Foi, por exemplo, a lição da vida de José, e o culminar triunfante das provações sofridas de seus próprios irmãos para se livrarem dele para sempre (Gn. 50.20).

Satanás teve que pedir para peneirar Pedro como trigo, e ele teve que pedir para afligir a Jó. Ele não poderia ter afligido Paulo com um espinho na carne, se Deus não o permitisse. E Deus nunca teria permitido tal coisa sem um bom motivo: uma expressão de Sua graça e de Seu favor, envolta na aparência de adversidade. Com que objetivo? Torná-lo mais parecido com Cristo!

O apóstolo entendeu a resposta do Senhor e afirmou:

“Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte” (2 Co. 12.9-10).

“Meu poder”, Jesus disse, “atinge a perfeição na fraqueza.” Uma das coisas mais difíceis do mundo é fazer com que os cristãos abracem e acreditem nesta verdade, mas o que Paulo diz aqui é sempre apresentado como a estratégia divina. Em 1 Coríntios 1.27-29, lemos:

“Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são”.

E assim a mesma coisa que lhe causou dor tornou-se para Paulo o lembrete do poder de Cristo manifestado em sua vida – e, portanto, um motivo para se alegrar.

O conceito de pai é sempre associado a grandes responsabilidades: trabalhar para garantir o sustento da família, gerenciar as finanças, cuidar da manutenção da casa, entre outras coisas. Mas a paternidade tem outro aspecto, tão belo quanto agradável. Nada se compara à alegria de ver um filho feliz e realizado, seja brincando no quintal, se formando na escola ou encaminhado na vida profissional, espiritual e conjugal.

Muitos homens hoje procuram se mostrar como super-heróis. São aqueles que podem com tudo. Vão pela vida demolindo muros com o peito, quando, na verdade, estão no fundo de um poço do qual não sabem como sair. Mas veja o exemplo de Paulo, ele não precisou de uma máscara e nem de uma capa para se tornar um herói. Apenas precisou repousar sua fraqueza nas mãos do Senhor. Esse é o grande desafio.