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O Reino do Bem chegou

“Ser voluntário muda tudo”, afirma Fábio Silva, líder da ONG Novo Jeito

Já ouviu falar em empreendedorismo social? Recentemente, o termo ficou bem conhecido e tem ganhado força na mídia, mas poucos conseguem dar uma definição clara. Trata-se de uma atividade que envolve a criação de produtos ou serviços capazes de gerar transformação social. Mais que compromisso com o lucro, o objetivo passa por resolver demandas de pessoas que, por diversas razões, não são atendidas pelo mercado convencional.

Fábio Silva se tornou uma referência em termos de voluntariado e ações sociais no Recife e no Brasil. O empreendedor é o responsável pela ONG Novo Jeito - que mobiliza pessoas para situações emergenciais -, pela plataforma Transforma Recife - que conecta pessoas interessadas em serem voluntárias com o objetivo de melhorar a qualidade de vida na cidade - e pelo Porto Social - que oferece mentoria jurídica, de gestão, contabilidade, comunicação e captação de recursos a projetos sociais. Tudo isso começou em 2010, quando as cidades da Mata Sul de Pernambuco foram atingidas por uma grande cheia. Tocado pela tragédia, Fábio mobilizou amigos para arrecadar colchões para a população atingida e, a partir daí, a Novo Jeito nasceu. Hoje, a ONG trabalha com diversas ações em hospitais, abrigos, áreas de risco do sertão nordestino, creches e vários outros espaços.

Recentemente, ele participou de um workshop sobre Empreendedorismo Social organizado pela Fundação Comunidade da Graça, e respondeu às perguntas da Revista Comuna.

Revista Comuna - Para que nasceu a Novo Jeito?Box oreinoSET18

Fábio Silva - Ela nasceu para tentar despertar na sociedade civil um senso de engajamento, de voluntariado, de serviço comunitário, o que no Brasil é tão baixo. No nosso país, apenas 14% da população fez ou faz alguma atividade cívica coletiva. Isso gera, entre outras coisas, falta de pertencimento: o espírito passa a ser do cliente da pátria e não do protagonista. Então, a Novo Jeito nasceu como uma convocatória para toda a sociedade civil. Porque se a gente quer mudar uma cidade, um estado ou o país, isso começa por cada um de nós. Queremos encorajar as pessoas a fazerem sua parte através do serviço comunitário. A grande pegada da Novo Jeito é mudar a agenda de vida da sociedade, que ela passe a ter um olhar de compaixão pelo outro e deixe de colocar todos os problemas nas costas do poder público. As iniciativas solidárias são o caminho para a cidadania, são um chamado a ser parte da solução. Nosso papel é viabilizar aquilo que já está no coração de muita gente: a disposição para ajudar.

RC - A que pode ser atribuída a falta de engajamento?

FS - São duas coisas. Primeiro, a uma cultura que foi construída. Hoje, por mais que o brasileiro queira se engajar civicamente, fazer algum serviço comunitário, ele não sabe como pode fazer isso. Para quem ele liga? Procura por quem? Acessa qual site? O cardápio não está disponível e isso já dificulta demais as coisas. Na hora em que a gente coloca essas coisas à disposição, o engajamento começa a crescer. E a segunda coisa é que em países como Canadá ou Estados Unidos, quem se engaja civicamente tem um programa de benefícios. Isso acaba acelerando a participação. Os pontos acumulados pela participação cívica nesses países acabam ajudando no ingresso na universidade, acesso ao mercado de trabalho, participação de programas sociais e concursos públicos, é um diferencial mercadológico. Então, a grande questão é deixar o cardápio disponível e criar um programa de benefícios para valorizar a quem faz o bem.

RC - Como esse programa funcionaria, por exemplo, no mercado de trabalho?

FS - Qualquer empresa hoje, na hora de uma contratação, solicita um currículo que, normalmente, está conformado pela trajetória estudantil e profissional do candidato. Imagina se você conseguisse anexar a isso o seu currículo social, dizendo que você investe tempo aos finais de semana auxiliando numa creche ou num asilo, cuidando da praça do bairro, doando sangue, plantando árvores, utilizando seu talento a favor de uma comunidade menos favorecida. Isso traz valor para o profissional que é contratado, porque quem carrega esses valores de compaixão, justiça e solidariedade, não vai estar enrolando num emprego remunerado. Quem tem engajamento cívico carrega o conjunto de valores da vida de serviço. Assim, a gente conseguiria levar para o mercado de trabalho além de bons profissionais técnicos, profissionais mais humanos.

RC - Muitos olham para a ideia de mudar o mundo como uma utopia. O empreendedorismo social é uma ferramenta para mostrar que aquilo, de fato, é possível?

FS - Sim. Mas o jeito de mudar o mundo começa pela esquina, o quarteirão, a praça, o bairro, aquilo que está próximo de nós. O empreendedorismo social é uma ferramenta para que microtransformações sejam reproduzidas em escala. Ele não pensa em mudar a vida de apenas um idoso, pensa em criar tecnologia para que todos os idosos do país sejam beneficiados. É uma revolução silenciosa de cidadãos que começam mudando as ruas, ajudando os porteiros, colocando sua profissão a favor de quem não tem acesso. Se isso tudo acontecer, vamos mudar o mundo.