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O Manancial de Valadares

Comunidade da Graça em todo o Brasil se mobiliza para enviar água a Minas Gerais

“Eu estava na minha cozinha lavando umas vasilhas, quando ouvi um barulho muito forte vindo em direção à minha casa. Eu não sabia se era uma casa pegando fogo, um avião caindo, então pedi para o meu marido ver o que estava acontecendo. Quando ele viu, só tinha lama, barro e poeira cobrindo as casas. Pegamos nossas filhas e saímos correndo. Minha mãe não estava em casa nessa hora, ela não conseguiu se salvar.”

Foi assim que Marly de Fátima Felipe descreveu o que aconteceu no dia 5 de novembro. Ela é uma das mais de 1200 pessoas que ficaram desabrigadas após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), que devastou os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Os números assustam: 35 milhões de m³ de rejeitos de minério vazaram com o rompimento, formando um tsunami de lama que, até agora, deixou 17 mortos e três desaparecidos, além de destruir 82% das construções do local mais atingido.

Como se a tragédia já não fosse grande o bastante, toda aquela lama precisava encontrar um lugar para sair. No caminho para chegar até o mar, acabou afetando mais 39 cidades entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Uma delas – talvez a mais comprometida – foi Governador Valadares (MG). Os rejeitos atingiram o Rio Doce, principal responsável pelo abastecimento da cidade, que, pouco tempo depois, foi declarado oficialmente morto.

Os moradores ficaram cinco dias completamente sem água. E foi aí que a Comunidade da Graça na cidade se levantou e começou a agir. “Nossa primeira ação foi socorrer os irmãos com suprimento de água potável”, conta Horácio Perim, pastor da igreja. Ele explicou que os comércios e as instituições que trabalham na área de saúde foram grandemente prejudicadas e que as coisas ainda têm muito a melhorar.

Com a situação se agravando, as necessidades aumentaram e era hora de pedir mais ajuda. O pastor entrou em contato com outras Comunidades e gravou um vídeo explicando o que estava acontecendo. Foi criada, então, a campanha ‘Água dá Vida’. As Comunidades da Graça ao redor de todo o Brasil se mobilizaram para fazer doações de caminhões pipa ou de dinheiro para comprar água. Além disso, várias outras instituições e igrejas espalhadas pelo mundo todo se comprometeram a ajudar.

Mais de 100 mil litros de água potável foram doados até agora. Os membros da CG Valadares se organizaram e buscaram a melhor forma de fazer com que essas doações chegassem às casas de cada morador. “Foi realizado um cadastramento de todas as instituições que seriam abastecidas como pontos de distribuição – escolas municipais e estaduais, creches, hospitais, asilos – e também um trabalho especial para levar essa água a famílias que não têm condições de ir buscar, que têm familiares idosos ou com deficiências físicas e mentais, por exemplo”, explica o pastor.

Mais de 10 mil pessoas puderam ser supridas através dessa ação. Apesar de o abastecimento da cidade já ter sido normalizado, muitos ainda reclamam da cor escura e do cheiro forte da água encanada e não acreditam que ela seja boa para consumo. Houve, inclusive, relatos de casos de alergias e doenças de pele em pessoas que tiveram contato com o líquido.

Segundo o pr. Horácio, a situação agora está sob controle e a resposta dos irmãos de todo o Brasil ao projeto foi imprescindível para que isso acontecesse. O lugar onde havia maior necessidade, acabou se tornando um verdadeiro manancial que ajudou a abastecer outras regiões. “As doações não só ajudaram a nossa igreja local e toda a cidade de Governador Valadares, como também puderam suprir as necessidades de outros munícipios próximos que também foram prejudicados.”

Ainda não se sabe ao certo quanto tempo vai demorar para que as coisas sejam normalizadas em todos os locais atingidos pelo rompimento da barragem. Talvez, os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo nunca voltem a existir, assim como o Rio Doce. Mas, a ação da igreja – tanto em projetos e doações, como com as orações – pode fazer toda a diferença nesse processo.